Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 22 Junho , 2009, 16:30

REPETIÇÕES DESTE MESMO BLOG

 
 


«TÚ Y YO NON NACIMOS DE UNA FLOR»

Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:52

A EPÍGRAFE encontra-se perdida algures no miolo de uma canção de Patxi Andión e penso que não precisa de tradução. Caiu hoje aqui na escrita como antes me caíra na ideia, quando assistia, na última sexta-feira, a um belíssimo documentário – só podia ser da RTP 2 – transmitido a desoras, para não ter muito público. Bom, se fosse a horas decentes, se calhar o resultado seria o mesmo, por razões que não vale a pena estar agora a dilucidar e os leitores sabem melhor do que eu.

O tema era o terrorismo em geral e o fenómeno dos homens-bombas e do terrorismo dito islâmico em particular, tudo a propósito da triste efeméride dos atentados de Londres, enquadrados no franchising mundial do terror não institucional conhecido por Al-Qaeda, apesar de, neste caso em particular (e na maioria dos outros), nenhuma ligação à empresa mãe se conseguir determinar.

O mais curioso que ali se demonstrava, quer por parte de investigadores ingleses, quer por parte da maior sumidade mundial no estudo dos homens-bombas, um israelita que tem acesso privilegiado a terroristas falhados que se encontram nas prisões de Israel, é não ser possível traçar o perfil psicológico de tais suicidas. O povinho, as mais das vezes induzido por pseudo-opinadores, que primeiro falam e só depois é que pensam, se tiverem tempo –  e nunca têm – resolve o problema duma assentada dizendo que é a religião e o fanatismo, enquanto os especialistas dizem que a não ser a pressão de grupo, não conseguem outro qualquer elo de ligação comum.

Tanto quanto se pôde ler no documentário, o bombista suicida raramente é um religioso tradicional, na maior parte das vezes ou é agnóstico (ou mesmo ateu) ou de conversão recente através de uma catequização superficial. Podem ser pobres ou ricos, sem nenhuma instrução ou universitários. Podem ser operários, engenheiros ou coleccionadores de doutoramentos. Maioritariamente são imigrantes de segunda ou terceira geração e conseguem ser considerados como bons vizinhos nos países onde a família se fixou.

Isto desmistifica a crença popular e a militância ínvia de alguns rapazes dos meios de comunicação social. Mas o mais preocupante que o documentário nos trouxe – e eu já conhecia a experiência por razões profissionais – é que todos nós (praticamente a 100%) podemos ser assassinos com ou sem causa, com ou sem desculpa. A experiência a que me refiro foi feita pela primeira vez por volta dos anos 50 e repetida várias vezes, até datas recentes, sempre com os mesmos resultados: para sermos assassinos basta-nos a necessária circunstância. Dá-se a um patusco o poder de castigar alguém que ele não vê, sempre que não responda correctamente a uma pergunta que ele formula a partir de uma lista com as soluções à vista. Sempre que o perguntado falha, o perguntador carrega num botão de que previamente foi informado que produz uma descarga eléctrica, que permanentemente duplica, face à repetição dos erros, estando também informado que a partir dos 290 voltes o castigado pode morrer. Pois bem, a maioria dos algozes, não só não se impressiona com os gritos de dor (claro que fingidos, mas que ele não sabe que o são), como ultrapasse as cargas mortais sem qualquer hesitação. Os que têm algumas perplexidades, perante o «então, errou, faça a descarga» do dirigente da experiência, logo mandam às malvas os rebates de consciência.

 

 

NÃO NASCEMOS DE UMA FLOR

Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:45


         DIZIA EU, na semana passada, que os opinadores de serviço induzem na acefalia mais comum a ideia de que os homens-bombas e problemas correlativos são coisas de fanáticos religiosos, como se petróleo fosse crença e ocupação da terra alheia simples ritual, e repetem como carrilhões afinadinhos a cartilha que lhes dá jeito. Eles sempre foram assim e não mudam: uns não viram os Gullag, outros não viram o extermínio dos judeus. Neste particular, para aliviarem a má consciência, não vêm agora que os que eram antes exterminados aprenderam mal a lição (ou bem, por outro prisma) e são agora exterminadores. Suas excelências do his master’s voice fingem ignorar algo de muito simples: não há nem nunca houve guerras religiosas, mas que não há nada como invocar Deus para escondermos o rabinho em seta, os corninhos e o cheiro a enxofre. Os homens lutam pela consistência da tripa tal como os cães pela posse do osso. São mais simples os cães, porque não esgrimem desculpas nem exibem álibis; são invariavelmente hipócritas os homens ao arranjarem doutorais explicações para a reivindicação da posse do osso e a condenação do outro. Se o outro não for assim tão diferente quanto se deseje, cobre-se com os defeitos que a retórica sempre arranja.

Estou a escrever na segunda-feira que precede a publicação desta crónica e acabo de ler o repugnante editorial de o PÚBLICO. É inacreditável como se consegue – e não foi o Sr. Durão Barroso que escreveu, embora tenha dito parecido na cimeira dos G8 – chamar ao algoz vítima e à vítima algoz. Israel, para treinar o exército, a aviação e marinha para a guerra que prepara contra o Irão resolve destruir pela segunda vez o Líbano, que não tem forças armadas – apenas soldados sem equipamento – e nem sequer possui baterias antiaéreas. É um treino de tiro ao alvo bastante seguro. Sê-lo-ia totalmente seguro se não existisse o Hezbollah, que não acredito que seja o exército de Deus, como resulta em tradução literal, mas o que sei é que o Tzal, que é em Israel o equivalente da Wehrmacht de Hitler, é o exército do Diabo. Diabo, aqui, é aquilo que não permite ao homem nascer das flores.
Entretanto ficámos a saber como é que o imperador Bush fala com os seus vassalos directos. Não se apercebeu que tinha um microfone aberto e, enquanto dava ordens ao Blair, foi debitando aqueles palavrões que os carroceiros dantes debitavam nos cafés de camareiras.

Assim vai a carroça do mundo e o estrume das alimárias nem sequer se aproveita para adubar os canteiros de flores. Para quê? Ninguém nasce de uma flor.

 

 


Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 22 Junho , 2009, 16:05

Este texto foi publicado primitivamente em 8 de Julho de 2006 no meu CONTRACORRENTE, em http://abdul.tblog.com/, mas como lhe deu um ataque ortográfico, resolvi trazê-lo agora para aqui

 

OS GAMBOZINOS DOS CONSPIRANÓICOS

 

08.07.06

A INVENCIONITE dos chamados Protocolos dos Sábios de Sião tem muitos crentes, ou antes, crédulos. Do mesmíssima modo se acredita no Pai Natal e nos gambozinos. Já tratámos deste assunto aqui e, no meu artigo «A Maior Fraude Editorial de Sempre», inserido no blog  http://abdul.tblog.com/, denunciei a crença espúria nos chamados Protocolos dos Sábios de Sião de forma sucinta, que me pareceu na altura suficiente, já que visava sobretudo enquadrar os disparates do Dan Brown. Por ecos que me chegam do Brasil e de Angola, sei agora que se goraram as minhas expectativas. Neste momento, em que o estado sionista de Israel, sob a protecção da Casa Branca e aproveitando mais uma vez a má consciência europeia, se prepara para provocar uma guerra atómica na região onde se instalou à  força em 1947 –  assim o Irão e a Sí­ria mordam o anzol –, é natural que se ponha de moda outra vez discutir o que não merece discussão: a pseudo-conspiração judaica que os referidos protocolos retrataria. É  uma verdade incontornável que Israel é um estado de características nazistas que pratica o apartheid, a tortura e as execuções extrajudiciais, mas isto não torna os protocolos verdadeiros nem credibiliza os dizeres dos conspiranóicos. Eu não tenho dívidas de que o sionismo conspira permanentemente, mas não é pelo «Pim-Pam-Pum» dos protocolos que afiro as suas tramóias. Pensava eu que, depois dos trabalhos do historiador russo Mikhail Lepekhine – ver «L’Express» de 24 de Novembro de 1999 – nenhuma pessoa honesta e bem informada poderia defender a autenticidade dos protocolos, mas subestimei quanto de auto-engano sobra nas gentes. Lepekhine provou sem qualquer margem para dívida, servindo-se dos ficheiros da antiga União Soviética, aquilo que os mais avisados sabiam há muito a partir de testemunhos que se acumulavam desde 1921, que tudo aquilo era falso e o falsificador tinha nome: Mathieu Golowinsky, de cuja biografia se retirava – e se retira agora comprovadamente – com toda a exactidão e detalhe o como, o onde, o porquê e a mando de quem. Apesar disto, muita gente com instrução superior, confrontada com as provas da falsificação, dá a volta ao texto e diz despudoradamente coisas deste género: «Bom, o que é certo é que, independentemente da autenticidade do livro, conjura existe tal como lá vem»!... Nas principais academias do mundo há hoje, como não podia deixar de ser, a profunda e total convicção sem a mais pequena margem para dívida de que os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude monumental, nem sequer bem escrita, nem sequer original. Ao dizermos isto, haverá sempre quem diga que há académicos que sustentam a veracidade dos mesmos (ou, em outra variante, que há ali muito de verdade), mas não devemos esquecer que há académicos que, contra todas as evidencias, contra todas as provas negam os campos de extermínio nazistas. Depois, todos sabemos pela prática de vida que, na actual sociedade espectáculo, mais do que em qualquer outra precedente, caluniar alguém equivale a marcá-lo para sempre com um ferrete. Nenhum desmentido lhe valerá e a todo o tempo haverá quem lembre o que foi dito, passando ao lado do que foi desdito. Para além de outros vícios sociais, isto prende-se com aquilo que em Psicologia se chama Wishful thinking (desejo de acreditar). O auto-engano. A vontade de acreditar inclina-se sobretudo para o tenebroso, para o lamacento, para o que amesquinha o outro. E amesquinhar o outro é esconjurar a nossa própria mesquinhez. Os crentes nos Protocolos dos Sábios de Sião, para se darem ares de que não acreditam à  toa muito simplesmente, escudam-se em citações de quem tomam como autoridade e usam a retórica do «é evidente» e «está-se mesmo a ver», quando não é evidente e muito menos visível, a não ser como miragem. É vulgar trazerem à  colação que Henry Ford publicou o livro em 1920, mas não sabem ou fingem não saber que o mesmo magnata se retratou em 1926, quando soube que o texto era uma falsificação. De qualquer forma, que autoridade especial poderia ter o fabricante de automóveis em assuntos de exegese literária? Os conspiranóicos em geral acreditam nas coisas mais inacreditáveis. O chefe de fila das modernas teorias da conspiração, David Icke, para além de acreditar na autenticidade dos protocolos, defende, nos seus dez livros mais vendidos, que estamos invadidos por seres reptilianos que têm vindo a tomar o lugar dos principais dirigentes do mundo. Bush, que não consta que seja adepto do Sporting, seria um desses seres em figura de gente. Um outro figurão da mesma escola, Henry Durant, acha que os ETs que nos invadiram e procuram escravizar a raça humana são uranianos, enquanto o mitómano Jim Marrs fala de homenzinhos cinzentos. Gente curiosa esta que junta por esse mundo fora milhões de abanadores de cabeça a quem consegue fazer crer que sabem ao pormenor todos os segredos do Universo e os mais secretos planos e decisões das mais secretas sociedades. E eu não entendo como é que pode ser secreto o que toda a gente sabe, já que se encontra na NET e vem em revistas e em livros que se vendem aos milhões. Menos entendo ainda que uns sábios quaisquer deixem escapar em letra de forma os seus planos para dominar o mundo. Quero eu dizer que não existe nenhuma conspiração? Longe disso! Eu acho que sem conspiração, ou antes, sem conspirações o mundo seria uma pasmaceira. O que é um partido político se não uma central de conspirações? Não são os cartéis  – e em especial as sete magnificas (ou sete irmãs) – centrais tenebrosas das mais iníquas conspirações? Como fazer a guerra e tirar proveito disso, como aumentar os réditos do petróleo sem conspirar? Todos conspiram, até a arraia-miúda, só que no seio desta a coisa tem outro nome, chama-se intriga, rasteiranço, morder na casaca, etc. e tal. Para não nos alongarmos demasiado, entremos na descrição da génese da grande fraude, façamos o historial da triste precedência das modernas teorias da conspiração, o ignóbil texto conhecido como Protocolos dos Sábios de Sião. Em 1852, recorrendo a um golpe de estado, o sobrinho de Bonaparte entroniza-se como Napoleão III. Por essa altura, Um advogado parisiense e deputado da Assembleia –  Maurice Joly – começa a escrever e a distribuir anonimamente uma extensa diatribe contra o tirano, editada mais tarde (1864) com o título «O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu». Como é evidente, esta obra não referia (nem, obviamente, podia referir) em momento algum qualquer conspiração judaica. Por mera coincidência, no ano seguinte (1865) nasce aquele que viria a ser o autor material dos Protocolos: Mathieu Golowinski, que cursou Direito e que, sob a protecção do ministro Conde Vorontsov-Dashkov, é encarregado dos mais sujos trabalhos policiais, nomeadamente forjar provas contra os acusados levados a tribunal, ao mesmo tempo que colabora com o Procurador do Grande Sínodo para a difusão de propaganda anti-semita. Está-se precisamente no rescaldo dos grandes progroms que varreram a Rússia entre 1881 e 1884. Em 1894 Nicolau II é coroado czar, o mesmo ano em que se assiste em França ao escândalo Dreyfus, que mereceu em 1898 o célebre J’accuse, do escritor Émile Zola. Enquanto decorria o Caso Dreyfus, o anti-semita e precursor da ideologia nazista Edouard Drumont publicava (1886) o livro incendiário «La France Juive». No mesmo ano do J’accuse, o falsário Golowinski cai em desgraça, é expulso da Ordem dos Advogados e é preso por conspiração, mas dadas as protecções de que goza, acaba exilado em França, onde vai engrossar as hostes anti-semitas engajadas nas calúnias a Dreyfus e nas perseguições aos judeus. É contratado pela polícia secreta do czar, a OKHRANA, e posto ao serviço directo do seu chefe local Rachkowski, que o encarrega de várias manobras de contra-informação, acabando por lhe exigir que arranje algo de suficientemente comprometedor para atacar os judeus na Rússia e culpá-los de todos os movimentos revolucionários que ali se desenvolvem. Dá-lhe um prazo demasiado apertado: 30 dias. Em tão pouco tempo não é possível criar nada de raiz. Que fazer? O homem não se atrapalhou e os 30 dias chegaram e sobraram. No ano anterior (1897), Benjamin Ze'ev, mais conhecido por Theodor Herzl, um jornalista austríaco de origem judaica, nascido em Budapeste fundara em Basileia a Organização Sionista Internacional. Golowinski propôs a Rachkowski forjar um manifesto do Congresso de Basileia, mas este achou que seria insuficiente e encarregou-o de adaptar o livro de Maurice Joly, já referido. Rachkowski sublinhou que recentemente o jornalista Decyon tentara usar as ideias de Joly para atacar o sistema financeiro da Rússia, pelo que o mesmo se poderia fazer agora para comprometer as organizações e os líderes judeus. Mais do que perceber o recado, Golowinski usou de toda a sua arte de falsário. Pegou no texto de Joly, condimentou-o com algumas tiradas do folhetim de Eugène Sue (O Judeu Errante) e uma dose reforçada do romance Biarritz, do romancista alemão anti-semita Hermann Goedsche, que usou para o efeito o pseudónimo de Sir John Ratcliffe. Interessante que este romance é todo construído a partir das ideias de Joly, com a novidade da introdução dos judeus na trama. Foi assim que Golowinski construiu aquilo que conhecemos hoje como os Protocolos dos Sábios de Sião. A obra de arte da falcatrua seguiu para Moscovo. Em 1905, Sergius Nilus, um concorrente de Rasputine que se dedicava ao espiritismo e à  «profecia» publica em Moscovo uma obra anti-semita intitulada «O Grande No Pequeno», onde transcreve parte do texto forjado por Golowinski, relacionando-o com o Congresso Sionista que, apesar de ter sido público, ele diz que foi secreto. Entretanto vem a I Guerra Mundial e a revolução bolchevique e os conspiranóicos tudo atribuem a uma conspiração judaica. Foi da rejeição ao comunismo que surgiu o interesse do magnata Ford na publicação dos Protocolos (1920), pensando que eram verdadeiros, mas que posteriormente (1926) repudiou com toda a veemência. Umberto Eco, a propósito dos Protocolos, traduzindo com a sua mestria o ridículo das crenças conspiranóicas mesmo quando confrontadas com as evidencias da fraude: «Os Protocolos podem ser falsos, mas dizem exactamente o que os judeus pensam, pelo que devem ser considerados autênticos». Ou dito de outro modo, em linguagem que não esqueça: uma mentira que dá jeito tem de ser verdade. A verdade dos preconceituosos. Sabemos bem que este assunto deveria ter sido escrito por um psiquiatra, mas quando não há cão caça-se de gato.

Abdul Cadre

 

 


Por Abdul Cadre | Quarta-feira, 17 Setembro , 2008, 16:51

 

 

 

 

De fato, este meu ato refere-se à não aceitação deste pato com vista a assassinar a Língua Portuguesa.

Por isso... por não aceitar este pato... também não vou aceitar ir a esse almoço para comer um arroz de pato...

A esta ora está úmido lá fora... por isso, de fato lá terei hoje de vestir um fato... 


 

Com o título, imagens e epígrafe que aqui se reproduzem, recebi em corrente internética o pedido de defender a Pátria, a Língua e a Honra perdida por causa do tal de «acordo» dos vaidosos donos do português. Para além de achar que o texto epigrafado exagera um pouco os malefícios do acordo, com que aliás não concordo e ao qual jamais me submeterei, não comungo das susceptibilidades dos promotores do desabafo.

Posto isto, reafirmo a minha radical oposição à estupidez, prepotência e inutilidade deste parto dos falsos iluminados que se apropriaram dos mecanismos decisórios desta área cultural. Sou radicalmente contra, apesar de estar ligado à Nova Águia e ao MIL – Movimento Internacional Lusófono, entidades que, como se sabe, são oficialmente a favor. Pois. É que não há ninguém perfeito e, por maioria de razão, instituições.

Há muito que já se viu ao que conduz a chapa um, a religião única, o pensamento único, o partido único, a superpotência única, o papa que não tem dúvidas nem se engana, a verdade única, a tábua rasa, a igualdade da desigualdade.. Mas – o que é que se lhe há-de fazer? – há sempre quem não queira arrepiar os neurónios com reflexões que desarrumam as prateleiras do pronto a pensar. Note-se que eu não sugiro que se aprenda com o erro, porque com o erro, normalmente, o que se aprende é a errar e a dizer que está certo.

Não é com uma religião única que o mundo se torna mais conversável, pois que, ao invés, melhor seria nenhuma religião. Óptimo, diria eu, era termos uma religião ou uma não-religião por cada cabeça e de pensamentos termos tantos e tão diferentes que até a cabeça doesse de tanto pensar, se é que a cabeça pensa, que de tal muito duvido. De gente papal e certa, nada como mandá-la ir dar lustro ao cágado, que isto de ter a certeza num bolso dá-nos a nós a certeza de que no outro bolso está o chicote para nos esclarecer as costas e nos poupar os neurónios.

É de pasmar, quando nos massacram os ouvidos com democracia, pluralismo e outras balelas só de boca, que de sentimentos estamos conversados, nos imponham prepotentemente maçãs calibradinhas ao milímetro, carapaus arianos, facas normalizadas, decretos ditatoriais fascizantes, alcunhados de acordos, com normas tontas para fomentar a ignorância dos meninos calaceiros e cábulas, que ficam assim livres de dar erros ortográficos e um pouco mais aptos para a submissão ao acriticismo, que é a coisa que quem manda mais aprecia.

Ora, o meu desacordo com o acordo leva-me a reenviar – em linguagem internética sem previsão no acordo diz-se forward – todos os contras, mesmo que dessintonizados do meu pensamento, aos meus contactos. Acontece que um meu correspondente se abespinhou e vai daí «oxepois» – é assim que se escreverá em futuro próximo – atira-me com esta:

«Defendes, então, não a unificação, mas sim  a mumificação da Língua Portuguesa? Desejas vê-la petrificada, compreensível somente em Portugal, enquanto que toda a comunidade de Língua Portuguesa se comunica de maneira diferente?  Sabes que este idioma não é exclusividade de Portugal e melhor seria se houvesse forma unificada de se expressar nessa Língua.»


 

À parte não querer entrar pelo campo controvertido do que é ou não é a tal aludida comunidade, nem sublinhar que as comunicações internacionais se fazem em língua inglesa, como antigamente se faziam em latim e num futuro não muito distante se farão em chinês, achei por bem responder assim:

Caríssimo, comecemos por algo fundador: ORTOGRAFIA E LÍNGUA SÃO DUAS COISAS DISTINTAS, por mais que se influam.

 Suponhamos, para ilustrar esta ideia, que a Guiné Bissau resolvia adoptar o alfabeto árabe, mantendo a língua portuguesa...

 Suponhamos que nós, aqui em Portugal, resolvíamos adoptar o alfabeto grego e continuar a falar português...

 

Quid Juris?

 Como vês, o problema não é de língua, mas da forma como se quer representar por letras aquilo que se diz...

 Quanto ao que defendo, é que cada país dos CPLP escreva como lhe der jeito, como lhe apetecer, podendo inclusive advirem línguas novas chamadas de angolano, brasileiro, etc. Foi isto que aconteceu com o Latim, que evoluindo e sofrendo aportes e esquecimentos impostos pela geografia e pela história acabou por se constituir em novas línguas, tornando-se a matriz uma língua morta.  

 MUMIFICAÇÃO é fazer-se um regulamento que pretende impedir a evolução natural de cada uma das variantes da língua portuguesa. Os mumificadores, tipo Malaca Casteleiro, surgem como iluminados que se apropriam das instâncias linguísticas, pendurados nas fraldas de políticos analfabetos e presunçosos e querem, por via administrativa, impor os seus entendimentos particulares ao entendimento geral e a sua ignorância militante à indolência popular. Isto em política stricto senso chamar-se-ia fascismo. Mas temos que nos habituar que o que está na moda é um grupo restrito impor a sua vontade e continuar a chamar de democracia a sua ditadura. São os ventos do tempo, que se caracteriza pelo cinismo pela hipocrisia e pela lógica do merceeiro: é preciso é obter proveitos, mesmo que as batatas estejam podres.

Eu podia trazer aqui críticas concretas àquilo que tem a alcunha de «acordo», mas que não é acordo porque ninguém acordou coisa alguma, para além do grupo restrito dos iluminados que o congeminaram. Podia também dizer que não uniformiza coisa alguma, pois que, contrariamente ao que pretende, o que cria é a anarquia. Por exemplo: o Brasil escreverá FATO e Portugal escreverá FACTO – está previsto no «acordo» – porque fato em Portugal é de vestir. Entretanto, corretor e corrector, que são duas coisas completamente distintas, correm o risco de se confundirem mais do que já se confundem hoje.

 A coisa alcunhada de acordo é mais um meio tendente ao facilitismo para que todos finjam que sabem aquilo que não lhes ensinam nem eles querem aprender.

 Erro grave é o Brasil ir abrir mão do trema, quando bom seria Portugal adoptá-lo, pois muita falta nos faz para a clarificação.

 Erro grave é pretender-se desinstruir a língua, aproximando a escrita da fala e mandando às urtigas a etimologia, quando é na etimologia que se resguardam os segredos das palavras e a sua sacralidade, mas num mundo sem espírito esta é a lógica

 E tudo para, provincianamente, armar ao pingarelho de língua ecuménica, quando o inglês se impõe agora e o chinês se imporá inexoravelmente em breve. É tão importante a língua chinesa que qualquer uma das suas variantes é por si só (não havendo a outra) a mais falada do mundo.

 Era bom ter-se a noção das grandezas!

 Agora vem o máximo da saloiice: o português passa a ser no mundo a única língua partilhada que pretende ser uniforme. O inglês, o castelhano, o francês e o alemão têm variantes, não se uniformizaram nem querem uniformizar-se. Presumo que resulta de terem tradições democráticas muito arreigadas, enquanto o nosso espaço foi tocado por ditaduras militares, ditaduras populares e fascismo stricto senso. Ora, as coisas estão todas ligadas. Em termos freudianos poder-se-ia ver aqui a razão da febre do tal acordo parido por iluminados.

 A referida febre não tem suporte em qualquer necessidade objectiva geral. Sempre nos entendemos por escrito com as variantes que temos. Ora, como diz qualquer treinador de futebol, em equipa vencedora não se mexe.

 A título de curiosidade se diga que, aqui em Espanha, não só se não uniformiza com os outros falantes externos como, no próprio território espanhol, há duas normas oficiais em vigor, a saber: «espanhol tradicional» e «espanhol moderno», sem que apareçam Malacas Casteleiros a fazer das suas.

 Ianques e ingleses entendem-se perfeitamente sem se uniformizarem e têm mais diferenças do que os portugueses e os brasileiros.

 Para que conste, podendo ser conferido nos correctores ortográficos da Microsoft, aí vão as variantes das línguas que nos estão mais próximas:

 ALEMÃO: CINCO VARIANTES -  alemã, austríaca, luxemburguesa, suíça e do Liechtenstein

ESPANHOL: (Leia-se castelhano): VINTE VARIANTES - Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto-Rico, República Dominicana, Uruguai, Venezuela + as duas já referidas (moderno e tradicional).

 FRANCÊS: TREZE VARIANTES - Bélgica, Camarões, Canadá, Costa do Marfim, França, Índias Ocidentais, Luxemburgo, Mali, Mónaco, Reunião, Senegal, Suíça, Zaire.

 

INGLÊS: TREZE VARIANTES - África do Sul, Austrália, Belize, Canadá, Caraíbas, EUA, Filipinas, Irlanda, Jamaica, Nova Zelândia, Reino Unido, Trinidad, Zimbabwe.

 É evidente que no Brasil não vão respeitar o que está escrito nesse ultraje à inteligência a que querem chamar acordo. Nem em Portugal. Nem em Angola. Nem. Nem. Nem.

 Porquê?

 Porque só o que faz falta ou dá jeito é que perdura; as embalagens, as espinhas, os ossos e os caroços deitam-se no contentor do lixo ou entregam-se para a reciclagem.

 

 ABDUL CADRE

 


Por Abdul Cadre | Terça-feira, 16 Setembro , 2008, 20:33

 

Vendas Novas, 16 de Setembro de 2008

 

 

 

 

ABDUL CADRE

FALIU o quarto banco de manigâncias dos USA, mas que ninguém se compunja com o destino dos seus verdadeiros donos, que devem estar agora mais ricos do que antes, que esta é a característica das instituições presididas e controladas pelos corsários modernos do sistema maravilha de aceitação geral. Os empregados estão no olho da rua e os seus fundos de pensões foram para o maneta. É o 11º ou 12º banco da era do exterminador implacável a dar com os cordelinhos na água. Quem paga os estragos? Simples: os credores desprevenidos e os diversos accionistas espalhados pelo mundo. Estes detinham as suas acções como forma de diversificação de reservas e investimentos. Em última análise e entre nós, alguns bancos portugueses ficam com papel para forrar os gabinetes dos administradores, mas não correm qualquer risco, basta que aumentem as taxas de juro do crédito à habitação para cobrirem o prejuízo e ainda acrescentarem mais algum aos seus réditos. Há muita gente que ainda não percebeu que este sistema se baseia em roubar aos pobres para dar aos ricos, com o consentimento e aplauso das vítimas voluntárias e satisfeitas.

Enquanto os bancos tremelicam, o gigante HP anuncia o despedimento de 28.000 empregados europeus e americanos que, evidentemente, não fazem falta nenhuma, já que os tinteiros são fabricados nas Filipinas e na Indonésia e as impressoras na China.

Tudo é um negócio da China.

E para que o negócio corra bem, mesmo que entrem em falência mil bancos, prepara-se o derrube do governo da Bolívia e o desmembramento do território através de guerra civil e secessão, o que é bom para a indústria de guerra e melhor ainda para garantir o fluir calmo e garantido do petróleo e do gás natural, que é o pão da boca dos corsários acantonados a norte.

Entretanto, o belicista MacCain, num golpe de génio, ultrapassou o Obama: foi buscar uma troca-tintas ao interior das seitas talibânicas da América profunda  e pô-la a render intenções de voto; a missionária Sarah Palin reúne todas as condições para se tornar Presidente dos Estados Unidos, não apenas porque o candidato formal, como se sabe, não dura mais do que um ano, pois sofre de cancro incurável em fase já muito avançada, mas principalmente por ser aquilo que o povo mais gosta: mentirosa, desonesta, oportunista e arrogante. A tirada de discursar avisando que é preciso estar-se preparado para entrar em guerra com a Rússia é música celestial para ouvido arruaceiro. Não adianta o New York Times gastar tinta a denunciar as suas muitas tropelias; quanto mais o fizer mais ela sobe nas sondagens. O povo lá não é diferente do povo cá. Contra ela e os republicanos, ao que parece, joga agora a falência do Lehman Brothers, mas até Novembro, o mais provável é que esqueça. 


Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 31 Março , 2008, 01:40

NÃO ERA minha intenção gastar mais cera com ruim defunto, que é esta aberração travestida de fada boa a que chamam acordo ortográfico, mas eis que volto a gastar o meu latim na sua abjuração, no seu exorcismo.

Este meu retorno à vaca fria tem como espoleta, sobretudo, os remoques que venho recebendo, além de me parecer que o próprio Presidente da República, que consta ter pouco entusiasmo pela coisa, se vai render ao que se lhe apresenta como inevitável, quando afinal só será inevitável se ele não se opuser.

Pelo meu lado, não me submeto nem aceito a aberração, a inutilidade que os poderes vão impor aos CPLP, nem que os iluminados que pariram a coisa obtenham a bênção papal, ou mesmo venham a ser canonizados. Estarei irredutivelmente contra. Penso que a melhor forma de expressar esta minha oposição é compartilhar com os meus leitores um texto anónimo que um amigo me enviou do Brasil, via Internet, inserido num PPS. O texto tem por título OLIA ÇO QUE MARAVILIA, que em português padrão quer dizer «olha só que maravilha» e será evidente que não segue os quesitos do «acordo», apenas ridiculariza esta sanha uniformizadora daquilo que só perde em o ser. Esta lógica perversa do facilitismo em prol das «boas» estatísticas. Diz o dito cujo:

«Eis aqui um programa de cinco Anos para resolver o problema da falta de autoconfiança do brasileiro na sua capacidade gramatical e ortográfica.Em vez de melhorar o ensino, vamos facilitar as coisas, afinal, o português é difícil demais mesmo.Para não assustar os poucos que sabem escrever, nem deixar mais confusos os que ainda tentam acertar, faremos tudo de forma gradual.

PRIMEIRO ANO: no primeiro ano, o "Ç" vai substituir o "S“ e o "C" sibilantes, e o "Z" o "S“ suave. Peçoas que açeçam a internet com freqüênçia vão adorar, prinçipalmente os adoleçentes. O "C" duro e o "QU“ em que o "U" não é pronunçiado çerão trokados pelo "K", já ke o çom é ekivalente. Iço deve akabar kom a konfuzão, e os teklados de komputador terão uma tekla a menos, olha çó ke koiza prátika e ekonômika.

SEGUNDO    ANO: haverá um aumento do entuziasmo por parte do públiko no çegundo ano, kuando o problemátiko "H" mudo e todos os acentos, inkluzive o til, seraum eliminados. O "CH" çera çimplifikado para "X“ e o "LH" pra "LI" ke da no mesmo e e mais façil… Iço fara kom ke palavras como "onra" fikem 20% mais kurtas e akabara kom o problema de çaber komo çe eskreve xuxu, xa e xatiçe. Da mesma forma, o "G" ço çera uzado kuando o çom for komo em "gordo", e çem o "U" porke naum çera preçizo, ja ke kuando o çom for igual ao de "G“ em "tigela", uza-çe o "J" pra façilitar ainda mais a vida da jente.

TERCEIRO ANO: no terçeiro ano, a açeitaçaum publika da nova ortografia devera atinjir o estajio em ke mudanças mais komplikadas serão poçiveis. O governo vai enkorajar a remoçaum de letras dobradas que alem de desneçeçarias çempre foraum um problema terivel para as peçoas, que akabam fikando kom teror de soletrar… Alem diço, todos konkordaum ke os çinais de pontuaçaum komo virgulas dois pontos aspas e traveçaum tambem çaum difíçeis de uzar e preçizam kair e olia falando çerio já vaum tarde.

QUARTO ANO: No kuarto ano todas as peçoas já çeraum reçeptivas a koizas komo a eliminaçaum do plural nos adjetivo e nos substantivo e a unificaçaum do U nas palavra toda ke termina kom L como fuziu xakau ou kriminau ja ke afinau a jente fala tudo iguau e açim fika mais faciu. Os karioka talvez naum gostem de akabar com os plurau porke eles gosta de falar xxx nos finau das palavra mas vaum akabar entendendo. Os paulista vaum adorar. Os goiano vaum kerer aproveitar pra akabar com o D nos jerundio mas ai tambem ja e eskuliambaçaum.

QUINTO ANO: no kinto ano akaba a ipokrizia de çe kolokar R no finau dakelas palavra no infinitivo ja ke ningem fala mesmo e tambem U ou I no meio das palavra ke ningem pronunçia komo por exemplo roba toca e enjenhero e de uzar O ou E em palavra ke todo mundo pronunçia como U ou I, i ai im vez di çi iskreve pur ezemplu kem ker falar kom ele vamu iskreve kem ke fala kum eli ki e muito milio çertu ?

Os çinau di interogaçaum i di isklamaçaum kontinuam pra jente çabe kuandu algem ta fazendu uma pergunta ou ta isclamandu ou gritandu kom a jenti e o pontu pra jenti sabe kuandu a fraze akabo.

Naum vai te mais problema ningem vai te mais eça barera pra çua açençaum çoçiau e çegurança pçikolojika todu mundu vai iskreve sempri çertu i çi intende muitu melio i di forma mais façiu e finaumenti todu mundu no Braziu vai çabe iskreve direitu ate us jornalista us publiçitario us blogeru us advogado us iskrito i ate us pulitiko i u prezidenti.

Olia ço ki maravilia!»


Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 31 Março , 2008, 01:27
 
 

ALGUNS jornais, tendo em vista a harmonização da escrita que apresentam aos seus leitores (e nem sempre da defesa da melhor correcção da língua), costumam organizar um livro de estilo que, todavia, violam quotidianamente em cada página. Se por este desprezo em código próprio já a boa-vontade tinha lugar assegurado no inferno, aproximando-se agora a rendição provinciana e basbaque a essa inutilidade alcunhada de acordo ortográfico, é lá bem no fundo que se bate, com os agradecimentos do diabo.

Essa coisa dita acordo poderá ser boa para dar lustro ao ego – que deve ser enorme – do Dr. João Malaca Casteleiro, que há anos queima as pestanas por tal obsessão feita menina dos seus olhos, mas nenhum benefício acrescentará à língua portuguesa, antes pelo contrário. Em questões ortográficas, se alguma reforma se exigisse seria, por exemplo, a reposição do trema que nos foi roubado sem qualquer justificação, o qual os brasileiros usam e fazem muitíssimo bem.

Convenhamos que a ortografia de uma língua tem mais a ver com política do que com linguística. Chamar-se os académicos a pronunciarem-se é porque faz muita falta haver um bode expiatório, se as coisas correm mal, porque correndo bem já se sabe de quem são os louros.

Dê-se de barato que ninguém no seu perfeito juízo se atreveria a defender que cada um escrevesse como lhe desse na real gana, mas é bom que se anteveja que é precisamente aquilo que vai acontecer depois de cumprida a ameaça em curso, não só durante o chamado período de adaptação, como depois.

A desculpa saloia de que é necessária uma uniformização ortográfica dos CPLP – necessidade nunca sentida, por exemplo, pelos povos da commonwealth – cairá por terra quando se perceber que os brasileiros continuarão a pôr acentos circunflexos onde nós pomos agudos e agudos onde nós pomos circunflexos, além de que, por exemplo, para evitar confusões, continuaremos, ao contrário dos brasileiros, a escrever facto e não fato. Para eles, o nosso fato é um terno.

De um lado e do outro do Atlântico, parece que cágado vai continuar acentuado, o que é uma pena, porque o bicho cheira muito mal.

Se queremos exemplos dignos de atenção, olhemos os dos falantes do castelhano (vulgo espanhol), do inglês, do francês e do alemão, que não estabeleceram acordos tontos ou patuscos que só a subserviência justificaria. Que prejuízos tiveram americanos, canadianos, australianos, ingleses, etc. em se recusarem a andar de uniforme? Nenhum, como é evidente, e a diversidade não constituiu qualquer obstáculo ao mútuo entendimento nem impediu que o inglês se tornasse a língua internacional por excelência.

O provincianismo de um acordo uniformista para o espaço lusófono não tem qualquer justificação válida, só tem desculpas de mau pagador. Se ninguém é dono da língua portuguesa, pois que cada povo que a fala a trate como lhe aprouver e a faça evoluir ao seu próprio jeito

O intercâmbio cultural, nomeadamente literário e editorial, é enorme no espaço da língua castelhana e, no entanto, são DEZANOVE as variantes ortográficas e de falares – não as nossas hipotéticas SETE –, a saber: argentina, boliviana, chilena, colombiana, costa-riquenha, salvadorenha, equatoriana, guatemalteca, hondurenha, mexicana, nicaraguense, panamaica, paraguaia, peruana, dominicana, uruguaia, venezuelana e as duas usadas aqui ao lado, na pátria-mãe, castelhano tradicional e castelhano moderno.    

E ninguém se confunde, se amalaca ou se acastela.


Por Abdul Cadre | Quarta-feira, 02 Fevereiro , 2005, 01:18

QUANDO SE ESTÁ a bater no fundo, o mais importante não é a decência, não são as boas maneiras, é o ar que precisamos nos pulmões, treze vezes por minuto, e o treze, já se sabe, faz conta aziaga. Toda a decadência nos põe em estado de necessidade, toda a virtude se apaga e só o treze se acende.


Mas há quem, mesmo sem chegar ao estado de necessidade, se comporte tal-qualmente nele estivesse. É assim que se vê Bush discursar como se fosse doutro planeta e Santana repetir-lhe as fantasias como se acreditasse. O primeiro, porque precisa de iludir o seu povo, o segundo porque precisa de se iludir a si próprio, fazer de conta que ainda existe politicamente, que ainda governa o país que ajudou a destroçar, que ainda preside ao partido que julgava seu...


Dizer das eleições do Iraque, escondidas de observadores internacionais e vigiadas a metralhadora, que foram livres e justas, para além de disparate, é um serviço à falcatrua. Mas, como todas as moedas têm duas faces, foi bom ficar patente que os defensores da contrafacção democrática já perderam todo o pudor e declaram claramente, sem se aperceberem que o estão a fazer assim, que democracia é o voto e apenas o voto, porque é para isso que os povos existem: votar, aplaudir e pagar os luxos e as mordomias de quem mais ordena. Os povos são inquilinos tolerados (por não haver outros) e os governantes os senhorios que lhes põem a renda a sufrágio. Está certo o Dr. Portas quando substitui o cidadão interveniente pelo cidadão cliente. É até um acto de bondade da sua parte que, em teoria, pressupõe o direito de reclamar da mercadoria. Mas só em teoria. Já viram o que acontece aos que são vítimas das fraudes incentivadas pelos governos, tipo compras em grupo e time sharing? É isso: estamos em time sharing!


Ficámos a saber, pelo próprio Bush, que, no Iraque, não se encontraram armas de destruição massiva, mas eu estou convencido que se vão encontrar os votos massivos e necessários para completar uma continha calada. Ainda ninguém os contou, mas já se sabe que são 60% de entrados e esta percentagem é precisamente a dos xiitas em relação à população total. Coincidência sem significado, provavelmente. É claro que não votaram sessenta por cento dos eleitores iraquinas em idade de o fazer, mas talvez — e pela chapelada em curso — 60% de 60%, o que dá 36%. Mas isto é o menos, já que nas nossas sociedades ditas livres os números são idênticos, mas, evidentemente, nestas as chapeladas só são praticadas em estado de necessidade aguda. Uma nota interessante é que as listas foram preparadas para que haja 30% de mulheres deputadas, coisa de que o ocidente prescinde para si próprio e não decreta. Uma fantasia, não é? Tudo isso é o menos; o busílis está nisto: os sunitas (mais de 30% da população), em termos práticos, não votaram; os candidatos curdos figuravam sem foto e com nomes fictícios, pasme-se. O Dr. Santana aplaude isto, porque é isto que entende por democracia, mas eu sei que só para o Iraque, porque aqui ele nunca prescindiria da sua foto. Aliás, gosta tanto de se ver e que o vejam que andou a encher lugares públicos institucionais de emoldurados seus à moda antiga. E ele sabe bem quem é. Pena é que não suspeite que nós sabemos ainda melhor.


Os relatórios da CIA, que nem sequer são secretos, vinham apontando para a necessidade de arranjar um governo fantoche que pedisse aos americanos para retirarem as tropas de ocupação, porque os 300 mil milhões de dólares de despesa estão a criar o afundamento do ainda flutuante Titanic, com os chineses a rir da situação (sem ser com riso amarelo) e a ocupação aumenta e justifica a resistência. Mas esta vitória americana no Iraque é uma vitória de Pirro. Num momento em que pressionam e hostilizam o Irão, dão o Iraque de bandeja aos ayatollahs. Além disto, que já seria muito grave para os seus interesses imperiais e de saque das riquezas da região, esqueceram-se de um pormenor: pelas leis fantoches que fizeram aprovar, nenhuma constituição poderá ser legalizada, dado que basta o veto de três regiões para que seja mandada às urtigas, e os sunitas têm quatro e os curdos uma. Será mais um factor para manter activo o caos que ali foi instalado pelos flibusteiros modernos (Blair & Bush). Tudo em nome da democracia e do combate ao terrorismo. Entretanto, o terrorismo dito islâmico — não sei se o da Irlanda será católico e o da ETA protestante — instalou ali o mais amplo e eficiente campo de treino que, aliás, está em vias de se alargar ao Koweit, à Arábia Saudita e aos pequenos estados do Golfo. Não são os 60% de votos fabricados na chapelada iraquina que têm ou deixam de ter importância; são os 60% de reservas de oiro negro ameaçadas — esses, sim, têm importância — que vão pôr em causa as democracias formais e totalitárias dos vassalos de Washington.


Face a isto, o dedo espetado de Portas, a gripe de Santana, a ameaça de despedimento político de Freitas do Amaral, o moralismo de Louçã ou os olhos retocados de verde de Sócrates são simples quadros de revista do Parque Mayer que ainda não é casino. Uma conversa da treta, é o que é.


Por Abdul Cadre | Domingo, 12 Setembro , 2004, 18:06
ROMPER BARREIRAS como é óbvio e a própria palavra romper no-lo denuncia, implica violência, o que varia em cada acto é o seu grau e a sua justificação (ou desculpa). A violência está profundamente enraizada na natureza, na humanidade e em cada um de nós. Na pragmática e na transcendência ela está insofismavelmente presente. Nascer é uma violência e morrer é-o também. Olhando o passado, poucos prestam atenção ao facto de ter sido há milhares de anos que o homem rompeu pela primeira vez a barreira do som. Isso mesmo, há milhares de anos, quando ainda era inimaginável voar, coisa que apenas atribuíamos aos insectos, às aves e aos anjos, embora o morcego, que não pertencia nem pertence a nenhuma destas categorias, também voasse; há milhares de anos, repetimos, quando não havia imagem sonhada sequer de aviãozinho de pau-e-corda, quanto mais de supersonização.... Foi há milhares de anos quando, por desfastio ou necessidade de afirmação, inventámos o chicote. Dava um prazer levado da breca ouvir aquele txique-zape, mas não foi por isso, por esse prazer, que o inventámos, o que nos moveu — o que sempre nos move — foi pensar no que lucraríamos com o castigo do lombo das bestas e dos escravos. Claro que rompíamos a barreira do som apenas do lado de fora — do lado de dentro foi um pouco mais tarde — mas desde aí aperfeiçoamos muito a técnica do txique-zape. E não se iludam: o Concorde, entretanto retirado para o asilo dos trastes sem serventia, nos seus voos entre Paris e Nova Iorque não foi mais do que um fait-divers, porque o que nos movia afinal era o escondido desejo do abate seguro e rápido do inimigo em voo, ou o seu churrasco, quando rastejante, não o devaneio de chegar ao destino antes da hora da partida. Pois é, contrariamente ao que fingem pensar certas almas piedosas, do parto ao genocídio há o exercício constante da violência e a ruptura de barreiras reais ou imaginárias. Será uma maldição? Não! é apenas a maldição da Besta. Ao homem caberia — assim o presumimos — tomar consciência dos medos escondidos nos seus porões, a desocultação dos seus atavismos e a sublimação dos seus actos pela iluminação do gesto, mas palpita-me que isto não é bom para o share e prejudica muito o mercado. Mas não se assustem, porque é evidente que progredimos muito no sentido da rejeição dos infernos que em constância temos criado. Acreditem porém que há muitos valores que descuidámos tanto que invocá-los é tornarmo-nos alvo de troça e gargalhada. Falar em honra, respeito e verdade é algo que o discurso totalitário em uso não comporta. Quanto ao que progredimos, poderíamos dizer que do atavismo da tradição oral, da pragmática das instituições tribais, dos tabus, da união pelo sangue e pelo chefe, das entoações mágicas e guerreiras, da agressividade progredimos respectivamente para a História, a Filosofia, a Religião, a Política, a Poesia e o Canto, a Dança e o Desporto... Porém, do atavismo da guerra, da solidariedade, da entreajuda, da irmandade, da hospitalidade, do guerreiro, da caridade, da religiosidade, da força bruta, da inteligência regredimos perigosamente para, respectivamente, o genocídio, o individualismo feroz, a competitividade, a bastardia, o condomínio fechado, o mercenário, o sem abrigo, os fanatismos de Deus e da sua ausência, o poder do dinheiro, a manha... E vejam: para além de haver por toda a parte a escravatura stricto sensu, estabelecemos novas formas de escravatura e de dependência feudo-vassálica: o trabalho temporário, o desemprego técnico, os recursos humanos descartáveis — recurso, como se humano fosse coisa —, os migrantes em fuga, a importação de mão de obra a granel... Estamos a tornar o mundo num lugar de ostracismo habitado por supranumerários. Uma selva pós-moderna com selvagens reciclados, tudo embalado em cibernética e apatia... Não é uma apagada e vil tristeza, é a vileza de quem deixa que lhe ponham a alma por conta, de quem traz a boca atafulhada de palavras inúteis.

Por Abdul Cadre | Domingo, 08 Agosto , 2004, 22:46
Vendas Novas, 8 de Agosto de 2004


Falecido muito recentemente, o professor Orlando Vitorino foi um filósofo à maneira antiga, merecedor de ser ouvido, mas que o processo de normalização em curso odiava em surdina e silenciava como podia, que silenciar é o grande método de preservação do sistema.
Que me lembre, este incómodo personagem foi uma única e singela vez à televisão, a um daqueles programas de quase clandestinidade que o fora de horas implica; Travessa do Cotovelo, ou coisa assim. E foi precisamente ali, para escândalo dos bem comportados presentes, que ele lançou uma das suas habituais provocações, por sinal a que mais usava entre amigos e admiradores, naturalmente poucos: «para elevar o nível cultural dos portugueses é preciso fechar todas as escolas e todas as universidades». Não posso afiançar do ipsis verbis, dado que cito de memória, mas penso não trair o sentido, que fez abespinhar uma das participantes — professora, disse-se ela —, que desatou a defender a anomalia questionada, que, evidentemente, lhe era útil e lhe garantia o que de mais necessário se sabe: o pãozinho. Na sua veemência, mais parecia secretária de ministro da malfeitoria dita educativa do que alguém predisposto a ajudar curiosidades juvenis.
Não se trata apenas de provocação, estou mesmo com o falecido professor que nunca quis ser comissário educativo de qualquer governo ou de qualquer governação. E vou mais longe: há que constituir arguidos — quem disse que a culpa não deve morrer solteira? — os que se reivindicam da habilidade e das habilitações para ensinar (?), que é coisa fraudulenta, evidentemente. Em toda a História da Humanidade nunca se registou um só caso que fosse de alguém dotado de capacidade para ensinar outro. Qualquer um de nós, estando para aí virado, pode aprender — até os bichos aprendem! — ensinar é que não, trata-se duma impossibilidade em tudo semelhante à da quadratura do círculo.
Daqueles que os ministérios normalizadores do pensamento amortalhado trazem por conta, eu preservaria os mestres — se ainda os houver —, mas não me escandalizaria se visse espernear na cadeira eléctrica a casta dos que se dizem pedagogos, porque pedagogo, na Grécia antiga, era o escravo que, para andar bem luzidio e anafado, não deixava em paz e sossego os meninos que os seus donos mandavam domesticar. Mestre é outra coisa, não ensina — sabe que é impossível —, apenas estimula por amor e vocação.
O resultado de haver escolas como as querem os do poder político, erguidas sobre a apatia geral e o acriticismo popular, está bem à vista. Se as víssemos pelo critério dos economistas, seriam fábricas completamente inúteis e falidas, vivendo do subsídio e persistindo nos seus produtos impróprios para consumo. Consequentemente, veja-se como um estudo internacional recente, publicado no New York Times, revela que só 13% dos portugueses atinge o nível de leitura de um livro por ano! Estonteante, não é? Ou seja, 87% dos nossos indígenas, apesar (ou por isso mesmo) de terem passado, na quase totalidade, pelas mãos dos tais pedagogos assalariados, que ainda se encontram em liberdade, por falta de lei que os condene, estão a marimbar-se para essa coisa que os repugna chamada livro.
Será que os ilustríssimos pedagogos, que só são inocentes por falta de trânsito em julgado, nunca ouviram os seus queridos adestrados com nove e mais anos de escolaridade imposta lerem em voz alta? Já? E o que é que pensam? Acham que esses moços e moças são gagos? E o que é que pensam de eles não entenderem o que lêem? Que são burrinhos? Não são!
Do meu ponto de vista, os resultados acabados de divulgar, absolutamente calamitosos, dos exames nacionais não classificam os alunos, classificam os professores, as orientações pedagógicas de que são cúmplices e as políticas que vêm sendo seguidas impunemente sem um não, sem um arrepio.
Esta calamidade insere-se coerentemente no nosso descontentamento geral, nesta apatia que apenas nos permite um gregarismo onde a cidadania nem como figura de retórica tem cabimento. Dos incêndios florestais, que servem a lágrima fácil e animam a exploração obscena da tragédia por parte dos media, passando pelo suicídio colectivo dos aceleras das nossas estradas, tudo é vendido por políticos, repórteres e outros comissários afins como uma maldição dos céus, como uma culpa de culpados maléficos, mas incorpóreos, de fantasmas, de sustos. Que importa, por exemplo, saber-se que com o valor dos dois submarinos absolutamente inúteis comprados pelo Dr. Portas se equipava completa e adequadamente o combate aos incêndios?
A ignorância patenteada pelos alunos não resulta de eles serem estúpidos, porque não são. Tampouco são eles que estão errados, nem se pode trazer ao banco dos réus o frango de aviário e os hambúrgueres. Essa ignorância é um reflexo das ignorâncias maiores e encartadas que condicionam o nosso destino colectivo. O poder político — veja-se — nem sequer se decidiu clara inequivocamente quanto à nomenclatura e objectivos concretos dessa coisa que podemos nós chamar de normalização e castração mental das crianças e jovens; ainda balança em dúvidas, ainda se compraz em demagogias e no politicamente correcto. Experimenta, experimenta, experimenta mas não nos diz se se trata de instrução, de ensino ou de educação. Alunos-cobaia, escolas-piloto!?...
Adiantemos que se o objectivo é formar produtores dóceis e capatazes que eficientemente os enquadrem, então as empresas que formem uns e outros, porque não tem de ser o povinho a pagar o que para o povinho não aquenta nem arrefenta; o Belmiro de Azevedo, como utilizador beneficiário, que crie uma Sonae-adestramento. Ou será que não se aplica aqui aquela estafada treta do utilizador pagador, esse slogan tonto com que os repenicadores de serviço nos entontecem?


Por Abdul Cadre | Terça-feira, 13 Julho , 2004, 02:14

         Está certo, está certíssimo, Ana Gomes. Para mal dos pecados dos portugueses que acreditam no Pai Natal — e dos outros também —concretizou-se finalmente aquilo que, mais parecendo uma ameaça (ou uma maldição), era entendido por outros como um velho sonho.


Um sonho totalitário, acrescentaríamos nós.


Justificou-se o estafado slogan alaranjado (ou atoranjado, que é ainda mais azedo).


Em termos formais, o Presidente tinha igual legitimidade para dissolver ou não dissolver a Assembleia da República. Assim, a decisão que se esperaria dele só podia ser política, que o mesmo é dizer do interesse nacional. Aliás, é para isso que o cargo existe, com as características que lhe dá um regime semi-presidencialista, que é coisa bem diferente de um regime parlamentar. Esperava-se que ele tivesse em consideração o sentir dos eleitores e que ajuizasse da correspondência ou não da maioria que apoia o governa a esse sentir .


Ao que parece, a crer nos discursos do Primeiro-ministro em fuga, desde a primeira hora, o fenómeno da sucessão dinástica estava assegurado, e tem razão o Dr. Manuel Monteiro quando sugere que o Presidente nos devia ter poupado ao teatro inconsequente a que obrigou tantos e não deveria ter arrastado a crise, que afinal não havia. O Dr. Durão Barroso tinha dado o lugar ao outro, estava dado e pronto. O Expresso tinha razão, estava tudo combinado.


Pois bem, o sapo que a maioria dos portugueses é obrigada a engolir é tão gordo que escusa o Dr. Sampaio de lhe pôr açúcar que a coisa não vai para baixo nem apertando o nariz. O bicho vai ficar atravessado na garganta enquanto durar este espúrio conúbio que só pode terminar em desgraça.


Ninguém pode negar ao Dr. Sampaio o direito que lhe assiste de se ir adaptando aos tempos e às correlações de forças, e, por maioria de razão, ninguém pode pôr em causa a constitucionalidade do seu poder dissolvente nem do seu poder branqueador. Concomitantemente, ninguém pode abafar a nossa estranheza ao ver caminhar alguém do mais esquerdíssimo MES para os braços desta direita impertinente, provinciana e destruidora de toda a esperança. Por outro lado, não é justo que nos peça compreensão para o incompreensível e não deve esperar daqueles que lhe deram o voto mais do que a lamentação por um percurso que se esgota da pior maneira e um mandato que todos vão querer esquecer, pois que ninguém gosta de recordar tristezas nem calamidades. A partir daqui é o acordar para a realidade, isto é, carregar as contrariedades e despir na praça pública as ilusões ou, como diria Brecht, «a partir de agora e por muito tempo não haverá mais vencedores, só vencidos». Nem sequer a confirmação das minhas teses, tantas vezes aqui expendidas, poderá minorar a ressaca ou levar ao sorriso.


De qualquer forma, confirma-se ou não se confirma que não existem democratas, o que existe são mentirosos?


Pois é, meus amigos, aquilo que os sicofantas vendem como democracia não passa de uma fórmula bem conseguida de iludir o princípio da soberania popular; um conjunto de técnicas expeditas e amplamente testadas de conquista e manutenção do poder, tendo o voto como engodo e como simulacro duma pluralidade de escolhas que, na verdade, ou são enganosas ou são impossíveis.


Estou a adivinhar-lhes um ar pesado, triste, sorumbático. Não estejam assim. Vou contar-lhes uma história para os distrair. Era uma vez um homem de sessenta e cinco anos, que é a idade mais indicada para se ser avô e reformado, que queria passar para a outra margem de um rio cheiinho de piranhas, onde os espertos crocodilos, para escaparem aos seus dentes acerados, nadavam de costas. O velhote não sabia nadar e, mesmo que soubesse, não tinha a rigidez de costas nem a carapaça dura do voraz réptil, o que tinha era um peso bem consistente, trazido pela idade, de 85 quilos e um par de melões, com cinco quilos bem pesados cada um, que transportava debaixo dos braços. Chegado à frágil ponte que permitia a travessia, deparou ali com um grande letreiro que rezava assim: «Atenção, perigo de derrocada. Se tem mais de noventa quilos, não passe». Ter-ter o homem não tinha, mas com o lastro dos melões é claro que ultrapassava. Num primeiro momento pensou abandonar um deles, mas de imediato lhe caiu uma ideia luminosa no pensamento: faria um pequeno número malabar como já vira no circo e, com a ajuda de Deus, tudo correria pelo melhor, que o pior seria vir o Diabo e deitar tudo a perder. Esperto e ladino como poucos e com toda aquela manha que a idade sempre acrescenta, o homem atira-se à ponte e, enquanto lança alternadamente os melões ao ar, vai dizendo em surdina, assim como quem reza: «Deus é bom, o Diabo também não é mau, Deus é bom, o Diabo também não é mau...»


Se a história terminasse aqui, os meus leitores diriam que se trata de uma metáfora para a nossa má consciência, representada exemplarmente no comportamento habitual da maior parte dos políticos que se alimentam do nosso voto e usam como guardanapo a nossa cobardia...


Ora, o epílogo é este: Chegado ao outro lado e apertando bem ao peito os dois melões, o homem olhou para trás e disse, como quem serve uma vingança a frio: «Safa! tão bom é um como é o outro».


Se alguma moral se pudesse tirar daqui, seria a de não se dever confiar em quem quer estar bem com Deus e com o Diabo.


Neste momento, isto deve ser perfeitamente claro para mais de 60% dos portugueses que estavam à espera de eleições antecipadas, é-o sobretudo para o eleitorado que elegeu o Dr. Sampaio, derrotando o voto CDS-PSD, é-o mais ainda para os seus antigos companheiros e camaradas e muito particularmente para Ferro Rodrigues, o amigo de várias décadas que se sentiu visado e traído. Mas este que se console, porque quem tem amigos assim jamais precisará de inimigos. Veja-se que estes, com a cabala da Casa Pia, apenas lhe acrescentaram cabelos brancos, enquanto o velho amigo e correligionário das andanças esquerdistas do PREC, com um só discurso redondo e incoerente o levou a atirar-se do alto do PS abaixo e a estatelar-se na calçada, o que até não é muito grave, pode levantar-se, como nos desenhos animados, sacudir o pó do fato de treino e dizer: desta alhada já me safei. Por outro lado, o PS até pode sair beneficiado.


Mas houve pior, nas hostes socialistas: um sobrinho meu, depois de moer e remoer aquele tiro na alma, deu-lhe um badagaio e entrou nos cuidados intensivos, quase a ir desta para melhor. Eu digo para melhor porque presumo que lá no outro lado não haja piranhas, nem crocodilos a nadar de costas, nem pontes à beira da derrocada...


O meu sobrinho já está livre de perigo e, com um pouco de fisioterapia tudo há-de voltar ao normal. A mesma chance não teve Maria de Lurdes Pintasilgo, que ao fim e ao cabo até é capaz de estar melhor do que nós: safou-se desta monarquia hipócrita, rasteira, parola e sem qualquer resquício de elegância ou aristocracia.


Paz à sua alma.


Para nós, que esta penitência possa contribuir para a remissão dos nossos pecados.


Por essa Europa fora vai um gozo dos demónios com a nossa política nacional e, enquanto isso, cai-me em cima um crítico — parece que leitor pouco atento do que eu escrevo — , atirando-me que eu só sei é dizer mal de quem a União reconhece os altos méritos, etc. e tal e não sei que mais. Ó meu amigo, não sou só eu: veja a imprensa internacional, que aliás referi na crónica de que não gostou. Mas esclareço um pouco mais. Quando o Financial Times dizia que o Dr. Barroso fora escolhido por ser o último homem de pé num combate de boxe, a frase tinha a ver com a seguinte constatação, que até corre por aí, na NET: O Presidente da Nomenklatura, isto é, o chefe dos comissários dos donos do pilim, é escolhido de entre e pelos 12 países que de entre os 25 o podem fazer. Como a França, a Bélgica e a Itália já tiveram os seus meninos a presidir, então sobram NOVE. Como Alemanha, Espanha, Holanda, Irlanda e Grécia detêm cargos de relevo, subtrai-se o seu número e ficam QUATRO. Dos quatro, foi convidado o primeiro-ministro do Luxemburgo, que recusou, por não querer fazer o mesmo que o Dr. Durão Barroso, isto é, fugir do governo. Ficaram TRÊS. Como para se ser Presidente da Comissão Europeia é obrigatório falar-se inglês e francês, coisa que nem o representante austríaco nem o finlandês sabiam, ficou apenas um candidato: Durão Barroso, que se tinha insinuado para o efeito junto da Irlanda.


Não estudem, não. Não se inscrevam no British Council e na Alliance Française e depois ponham-se armados em invejosos a dizer que não arranjam bons empregos.  


 


 


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