|
REPETIÇÕES DESTE MESMO BLOG |
«TÚ Y YO NON NACIMOS DE UNA FLOR»
Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:52
A EPÍGRAFE encontra-se perdida algures no miolo de uma canção de Patxi Andión e penso que não precisa de tradução. Caiu hoje aqui na escrita como antes me caíra na ideia, quando assistia, na última sexta-feira, a um belíssimo documentário – só podia ser da RTP 2 – transmitido a desoras, para não ter muito público. Bom, se fosse a horas decentes, se calhar o resultado seria o mesmo, por razões que não vale a pena estar agora a dilucidar e os leitores sabem melhor do que eu.
O tema era o terrorismo em geral e o fenómeno dos homens-bombas e do terrorismo dito islâmico em particular, tudo a propósito da triste efeméride dos atentados de Londres, enquadrados no franchising mundial do terror não institucional conhecido por Al-Qaeda, apesar de, neste caso em particular (e na maioria dos outros), nenhuma ligação à empresa mãe se conseguir determinar.
O mais curioso que ali se demonstrava, quer por parte de investigadores ingleses, quer por parte da maior sumidade mundial no estudo dos homens-bombas, um israelita que tem acesso privilegiado a terroristas falhados que se encontram nas prisões de Israel, é não ser possível traçar o perfil psicológico de tais suicidas. O povinho, as mais das vezes induzido por pseudo-opinadores, que primeiro falam e só depois é que pensam, se tiverem tempo – e nunca têm – resolve o problema duma assentada dizendo que é a religião e o fanatismo, enquanto os especialistas dizem que a não ser a pressão de grupo, não conseguem outro qualquer elo de ligação comum.
Tanto quanto se pôde ler no documentário, o bombista suicida raramente é um religioso tradicional, na maior parte das vezes ou é agnóstico (ou mesmo ateu) ou de conversão recente através de uma catequização superficial. Podem ser pobres ou ricos, sem nenhuma instrução ou universitários. Podem ser operários, engenheiros ou coleccionadores de doutoramentos. Maioritariamente são imigrantes de segunda ou terceira geração e conseguem ser considerados como bons vizinhos nos países onde a família se fixou.
Isto desmistifica a crença popular e a militância ínvia de alguns rapazes dos meios de comunicação social. Mas o mais preocupante que o documentário nos trouxe – e eu já conhecia a experiência por razões profissionais – é que todos nós (praticamente a 100%) podemos ser assassinos com ou sem causa, com ou sem desculpa. A experiência a que me refiro foi feita pela primeira vez por volta dos anos 50 e repetida várias vezes, até datas recentes, sempre com os mesmos resultados: para sermos assassinos basta-nos a necessária circunstância. Dá-se a um patusco o poder de castigar alguém que ele não vê, sempre que não responda correctamente a uma pergunta que ele formula a partir de uma lista com as soluções à vista. Sempre que o perguntado falha, o perguntador carrega num botão de que previamente foi informado que produz uma descarga eléctrica, que permanentemente duplica, face à repetição dos erros, estando também informado que a partir dos 290 voltes o castigado pode morrer. Pois bem, a maioria dos algozes, não só não se impressiona com os gritos de dor (claro que fingidos, mas que ele não sabe que o são), como ultrapasse as cargas mortais sem qualquer hesitação. Os que têm algumas perplexidades, perante o «então, errou, faça a descarga» do dirigente da experiência, logo mandam às malvas os rebates de consciência.
Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:45
DIZIA EU, na semana passada, que os opinadores de serviço induzem na acefalia mais comum a ideia de que os homens-bombas e problemas correlativos são coisas de fanáticos religiosos, como se petróleo fosse crença e ocupação da terra alheia simples ritual, e repetem como carrilhões afinadinhos a cartilha que lhes dá jeito. Eles sempre foram assim e não mudam: uns não viram os Gullag, outros não viram o extermínio dos judeus. Neste particular, para aliviarem a má consciência, não vêm agora que os que eram antes exterminados aprenderam mal a lição (ou bem, por outro prisma) e são agora exterminadores. Suas excelências do his master’s voice fingem ignorar algo de muito simples: não há nem nunca houve guerras religiosas, mas que não há nada como invocar Deus para escondermos o rabinho em seta, os corninhos e o cheiro a enxofre. Os homens lutam pela consistência da tripa tal como os cães pela posse do osso. São mais simples os cães, porque não esgrimem desculpas nem exibem álibis; são invariavelmente hipócritas os homens ao arranjarem doutorais explicações para a reivindicação da posse do osso e a condenação do outro. Se o outro não for assim tão diferente quanto se deseje, cobre-se com os defeitos que a retórica sempre arranja.
Estou a escrever na segunda-feira que precede a publicação desta crónica e acabo de ler o repugnante editorial de o PÚBLICO. É inacreditável como se consegue – e não foi o Sr. Durão Barroso que escreveu, embora tenha dito parecido na cimeira dos G8 – chamar ao algoz vítima e à vítima algoz. Israel, para treinar o exército, a aviação e marinha para a guerra que prepara contra o Irão resolve destruir pela segunda vez o Líbano, que não tem forças armadas – apenas soldados sem equipamento – e nem sequer possui baterias antiaéreas. É um treino de tiro ao alvo bastante seguro. Sê-lo-ia totalmente seguro se não existisse o Hezbollah, que não acredito que seja o exército de Deus, como resulta em tradução literal, mas o que sei é que o Tzal, que é em Israel o equivalente da Wehrmacht de Hitler, é o exército do Diabo. Diabo, aqui, é aquilo que não permite ao homem nascer das flores.
Entretanto ficámos a saber como é que o imperador Bush fala com os seus vassalos directos. Não se apercebeu que tinha um microfone aberto e, enquanto dava ordens ao Blair, foi debitando aqueles palavrões que os carroceiros dantes debitavam nos cafés de camareiras.
Assim vai a carroça do mundo e o estrume das alimárias nem sequer se aproveita para adubar os canteiros de flores. Para quê? Ninguém nasce de uma flor.