Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:46

 

Vendas Novas, 11 de Março de 2010
  
AO QUE PARECE, somos três em um, como certos produtos da cosmética: o que verdadeiramente somos, o que julgamos ser e o que os outros pensam que somos. Desta última condição resulta que o retrato que nos façam pouco ou nada contribuirá para que nos conheçamos, mas é o melhor meio ao nosso alcance para sabermos quem é e como é o retratista.
Atendendo a tudo isto, bom seria que, sem qualquer inquietação de maior, admitíssemos, à revelia do senso comum, que os homens e as mulheres, bem vistas as coisas, não têm defeitos nem têm virtudes, têm sim características. Por simples benevolência, às características que nos agradam chamamos então virtudes, às que nos incomodam, defeitos. Sobra daqui um grande problema: que imperial acuidade nos leva à distinção em que somos pródigos? E sobre nós, qual a bitola, qual a acuidade?
Quem é que não sabe – quem? – que não se deve confiar em quem nos diga coisas do género: «eu cá sou muito sincero» ou «eu sou uma pessoa muito simples»?
E não é apenas por bem sabermos que ninguém é bom juiz em causa própria, nem por olharmos o louvor de quem a si se louva como vitupério, mas sobretudo porque a psicologia prática nos ensina, por um lado, que do que nos é natural nos não damos conta e, por outro, que quem simples se julga complicado é, depois, que quem se declara sincero, por norma, desconhece o que isso seja. Em contrapartida – se nos quisermos auto-analisar – constataremos que os defeitos que apontamos aos outros nos assentam como luva. Nesta conformidade, talvez devêssemos tomar como princípio que todos os nossos relacionamentos estão sujeitos a projecções e reflexos dum compósito jogo de espelhos. Como não temos capacidade para conhecer o outro por si próprio – tomáramos nós conhecermo-nos a nós próprios! – inventamo-lo à nossa imagem e semelhança, pondo no altar aqueles que amamos e remetendo para o inferno os que nos incomodam. Todavia, não amamos nem odiamos para além daquilo que somos, apenas enaltecemos virtudes imaginadas para a construção da corte que nos conforta e esconjuramos o mal em nós negando ao objecto da nossa raiva ou da nossa má vontade todo o merecimento. Ora, o outro é, para o bem e para o mal, o nosso espelho. Se o quebramos, desencontramo-nos; se lhe pusermos uma moldura, virá o tédio das imagens repetidas roubar-nos a aprendizagem...
Bom seria ver no outro um lago luminoso e transparente. Um lago imenso onde os céus se reflectem e a nossa emoção se retempera.
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul
 

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:43

 

Vendas Novas, 17 de Fevereiro de 2010
  
CERTAMENTE que o mundo é composto de mudança, não apenas porque Camões o disse, mas porque nós – todos nós – damos por isso e até colocamos cada mudança de que damos conta no tempo que lhe achamos próprio, como se o tempo fosse jarra, ou como se o tempo fosse esquife. E pomos nisso tudo uma etiqueta, escrevendo a letra gótica: PASSADO.
 O esquife é o esquecimento, que é aquele lado da memória onde as luzes estão apagadas; as jarras de flores a que com frequência mudamos a água são as recordações. Então, quando as coisas se nos apresentam desfasadas dos nossos arreigados hábitos, dizemos para os desarrumadores do nosso sossego: Ah! No meu tempo é que era bom.
Quando já ninguém tem pachorra para ouvir os nossos lamentos, sentamo-nos na nossa cadeira de baloiço e embebedamo-nos de nostalgia. Se alguma sabedoria colhemos ao longo da vida, talvez cheguemos à conclusão que tudo neste lado da vida apodrece para que as flores nasçam, a vida se renove e o tempo desenhe sem embaraço as espirais de fumo com que nos engana. Porque nós dividimo-lo em passado, presente e futuro, como se fossem coisas separáveis, quando não são, são apenas formas de dizer morte, vida e renascimento. Ou antes, o que verdadeiramente existe é a vida e ao seu intenso regurgitar chamamos presente, podendo dizer-se que vida e eterno presente são sinónimos, são a mesma coisa, sendo passado um nome outro para memória e futuro uma forma de exercitarmos a imaginação. O futuro não é o presente feito dia seguinte, é a imaginação levada à prática. Neste aspecto, é bom que se saiba que, por exemplo, na língua japonesa não temos forma de conjugar o futuro e, no inglês, para o fazermos temos de usar um verbo auxiliar.
De qualquer forma, sendo evidente que o peso das memórias e das experiências nos conduz na ordem dos dias como o boiadeiro conduz os seus bichos cabisbaixos, deve realçar-se que sair da manada e recusar a canga aumenta a experiência, amplia a memória e funda o futuro com mais fértil e saudável imaginação.
Cabe dizer-se aqui que há muita gente que confunde perícia com experiência. Ora, a perícia vem-nos dos gestos mil vezes repetidos, enquanto que a experiência pouco ou nada deve à repetição, depende, isso sim, do enriquecimento dos dias e das vivências. Conheci um indivíduo a trabalhar há trinta anos no mesmo lugar, na mesma secretária, junto à mesma janela que era perito no muito pouco que fazia e inexperiente em tudo o mais que o cercava. Afinal, o que ele tinha era o mesmo e único dia repetido na rotina de trinta anos de tédio. Estava morto há muito tempo e ninguém tivera o cuidado de o avisar.
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul
 

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:36

 

Vendas Novas, 24 de Janeiro de 2010
 
SOU de uma geração romântica e idealista que, por contingências do tempo e do lugar, aprendeu a ler nas juvenis histórias em quadradinhos de revistas como o Cavaleiro Andante e o Mundo de Aventuras, tornadas clássicas do género. Deliciávamo-nos então com as aventuras de «O Príncipe Valente», com os «Cavaleiros da Távola Redonda», fazíamos espadas de pau e jurávamos solenemente combater o mal onde quer que ele estivesse, onde quer que o encontrássemos. Ainda não havia televisão nem a banda desenhada japonesa, onde em cada página surge a frase: temos que exterminá-los. No cinema campeavam os filmes de capa e espada e os westerns, onde o herói, um cavaleiro moderno, usando pistolas em vez de espada, libertava a cidade dos maus que a oprimiam e, cumprida a missão, partia sem esperar recompensa ou aplauso e desvanecia-se no horizonte como se fosse o rei Artur a caminho de Avalon.
Sintomaticamente, pela sua etimologia, Avalon é o lugar do ocaso.
Estas histórias do oeste, de final feliz pela reposição da justiça, são, salvas as devidas proporções, reformulações do espírito medieval do cavaleiro andante. Se não, vejamos na célebre novela de Thomas Malory (séc. XV), A Morte de Artur, o que se diz a páginas tantas:
«... E quando todos vieram agradecer-lhe, ele já havia partido em busca de novas aventuras em que pudesse corrigir injustiças e malfeitorias».
Noutra passagem, lê-se:
«...Corajoso e forte, Lancelote do Lago defendia as damas e as donzelas, os fracos e os desamparados, combatendo os cavaleiros covardes que houvessem traído as regras da cavalaria...»
Mas os tempos mudaram. O cavaleiro andante medieval foi amortalhado no Cavaleiro da Triste figura da novela de Cervantes, os cowboys andam de jipe, usam telemóvel e deixaram-se de heroicidades, comem pipocas e vêem televisão. A inocência dos anos sessenta esgotou-se no dia em que se descobriu que as crianças nascem hoje de olhos abertos.
O tempo que passa tem o relativismo como prática e a apatia como condição. No mais, tudo se mede pela manchete e pelo share, onde o Cristo perde para a Madonna por uma percentagem considerável.
Vou reler o Príncipe Valente, a ver se me distraio.
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul
 
 
 

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:18

 

Vendas Novas, 01 de Janeiro de 2010
 
SE acaso podemos chamar de santo àquele que não peca, então não será exagerado presumirmos que a santidade sirva sobretudo ao santo. Por outro lado – é o prejuízo dos mais –, pode dizer-se que o pecador se enche de remorsos, que é coisa que dói muito na alma e talvez não compense o prazer que o pecado sempre dá. Além disso, numa etimologia possível, remorso significará morrer uma vez mais...
Dum ponto de vista pragmático, bom seria que a santidade fosse social e humanamente útil; que mais do que não praticar o mal fosse sobretudo praticar e ser o bem; que santidade fosse algo de contagiante, de epidémico, sem hipótese de vacina que a debelasse. Que a santidade nunca ficasse fora de moda, que fosse coisa de que todos pudessem servir-se, servindo, sem que tempo algum sobrasse para mortes repetidas, isto é, para o remorso.
Os leitores que me desculpem, mas de santos do ocidente cristão e dos seus congéneres orientais, por mais de que por eles não tenha vindo mal ao mundo, será simpático recordar-lhes os nomes em folhas de calendário, mas creio que pouco mais lhes devemos. Evidentemente que foi bom não terem contribuído – os que não contribuíram – para os males do mundo, mas certamente haverá alguns que melhor fora rasgarmos a folha do dia que os invoca.
Muitos dos aureolados são-no devido aos caprichos humanos, já que o céu não se pronuncia – não pode nem deve – e passaram por aqui como se nunca tivessem existido. Se na renúncia, na omissão, no amor a Deus fora do amor aos homens houver alguma libertação, talvez esses santos, inexistentes fora do nosso remorso, se tenham libertado a si próprios. Talvez! Mas desprezaram a sua e a nossa humanidade. Sobretudo, desprezaram o nosso desterro e não tiveram em conta a nossa própria incomparável e insubstituível libertação. As vias friamente piedosas que escolheram, por intransmissíveis, tornaram-se para nós recordações inúteis e armas de arremesso e constrangimento nas línguas desatadas de pregadores tristes em domingos equivocados. São, objectivamente, instrumentos cruéis do nosso remorso sempre crescente.
Eis porque me é tão cara aquela crença sufi de que bem melhor do que o santo é o sábio, servido este por uma santidade superior que partilha com os mais. O sábio que ascende ao saber real e distribui quanto pode aos famintos de espírito e aos dotados de boa vontade do quinhão que lhe cabe do maná celeste, que é a inteligência pura, é uma semente prodigiosa de humanidade e de futuro.
O sábio mostra, enquanto o santo esconde. O santo vem e o santo vai e só o nome fica, quando fica; pela passagem do sábio muda o mundo, muda o homem e até a matéria bruta se torna um pouco mais compassiva.
O altruísmo do sábio é o contraponto do egoísmo do santo.
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul
 

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:14

 

Vendas Novas, 17 de Janeiro de 2010
De dupla nacionalidade – portuguesa e brasileira – o saudoso professor Agostinho da Silva foi um homem que veio do futuro para nos enriquecer o presente. Ele costumava dizer que todos nós somos estrelas de incomparável brilho.
Que pena, termos tanta dificuldade em acreditar nisto!
E, no entanto, o brilho vê-se nos olhos quando o peito arde sem constrangimentos. Todavia, torna-se uma necessidade permanente avivar a chama, visitar o interior, varrer as cinzas e encher o lugar de alegria.
É no mais profundo do peito que nascem e morrem todos os sentimentos. As lágrimas podem lavá-los, mas também molham os bagos de amor que são os carvões da fogueira que nos permite brilhar, prejudicando assim a combustão, enchendo de fumo o nosso entendimento, e isso traz tristeza e ofusca-nos o olhar.
Ver no outro o brilho verdadeiro que em nós imaginamos, chama-se EUCARISTIA – palavra derivada do grego, com o significado etimológico de «o bem do amor» –, sendo que o amor não é nem nunca foi o que o homem pós-moderno diz, mas aquilo em que ele, por inércia ou receio, não quer acreditar. É por isso que fala de fazer amor, como se amor fosse mecânica ou artesanato, confundindo apelos da alma (que traz amordaçada) com ânsias da carne (que traz à rédea solta); por falta de hábito e por falta de intenção, dar-se ao outro pelo outro é-lhe completamente incompreensível. O TER infectou-o tanto por dentro que o SER, cada vez mais angustiado, se afasta cabisbaixo pela estrada da mágoa e do desconsolo.
O amor – não uma sua qualquer particular manifestação menor – é a negação da morte, como se diz com mestria no soneto de Antero de Quental intitulado «Mors – Amor», quando o corcel negro diz «eu sou a morte» e o cavaleiro lhe responde: «eu sou o amor».
É certo que, materialmente falando, no preciso momento em que nascemos, começamos a morrer deste lado da vida, e que em todos os dias desta nossa peregrinação nascemos e morremos continuadamente, porque, afinal, viver é matar a morte de cada dia, buscando a luz do nosso próprio campo de estrelas.
Quando as estrelas, em vez de brilharem, se ofuscam, tendem a colapsar sobre si mesmas. É isto que acontece ao homem preocupado apenas com o seu umbigo. Ávido de prazer, ele desconhece a alegria e julga poder afastar a dor; não pode, a dor é uma inevitabilidade, o que é opcional é o sofrimento, que é o carrasco da alegria.
Como imagem para o nosso colapso de estrelas que não ousam sê-lo, olhemos algo que se pôs de moda, fazer implodir velhos edifícios para dar lugar a outros, presumidamente melhores. O colapso do homem velho seria, nesta condição, uma coisa boa, isto é, se melhor construção viesse, mas enquanto vivermos de fora para dentro, tenhamos a certeza que nem aos caboucos meteremos ferro, antes veremos embargada a construção do homem novo, tão desejada em tempos de exaltação, tão tumular em tempos de apatia. A construção do homem novo, daquele que há-de viver de propósito e brilhar por condição, que viverá de dentro para fora, com o peito a arder, é uma promessa de vida, de futuro e de plena realização.
Podemos antever isso, sempre que em noite amena e estrelada nos deitemos em chão despido, olhando o céu, extasiados com a Via Láctea, a que pertencemos, essa metáfora do que somos.
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:10

 

Vendas Novas, 28 de Novembro de 2009
 
Há quem acredite haver uma coisa chamada de jornalismo de investigação, tal como ainda existe muito boa gente que acredita nos gambozinos. A realidade – pelo menos no nosso país – é que há o nome mas não há a coisa. Dito de outra maneira: jornalismo de investigação não é jornalismo nem é investigação. Se aqueles que têm a vocação, as competências e os meios para investigar ficam tantas vezes aquém do que deles se espera, como podem os portadores de esferográficas, por mais curiosos e ladinos que sejam, saber mais de missas do que um padre. Aqueles plumitivos que se vangloriam da sua costela de Poirot podem muito bem ser as pessoas mais sérias e bem-intencionadas do mundo, mas se a si próprios se observarem criteriosamente como se estivessem do lado de fora, hão-de convir que o seu «métier» não seria conseguido sem que consentissem em ser usados como pombos-correios de interesses esconsos. Por vezes a coisa resulta bem, seja porque, na vingança conseguida, o malandro que chibou do malandro contribuiu para que a lei não ganhasse traça, seja porque a denúncia era justa e o denunciante tão tímido que não tinha coragem de accionar os meios naturais que sempre existem num estado que se alicerce no Direito. De qualquer modo, do que falamos é de intriga, de conspiração e de sequelas de antigos vícios de denúncia maldosa de que já devíamos estar curados, raramente se podendo dizer que houve vontade de bem servir e defender a prevalência da honestidade e da lei.
E tudo isto é o menos, porque o mais está na manipulação e na criação de factos para a consecução de objectivos económicos, políticos ou outros, envolvendo muitas vezes o concluiu com fugas de informação (bastas vezes distorcidas) direccionadas intencionalmente contra fulano ou sicrano, desta forma se condicionando a «notícia», ao mesmo tempo que a ampliação e especulação desta condiciona a investigação, numa espécie de pescadinha de rabo na boca que intoxica a opinião pública. Depois, a tabloidização geral a que se assiste no nosso país leva a que cada jornal que conta um conto lhe acrescenta, com total impunidade, mais um ponto e mais um ponto e mais um ponto.
No modo de produção da notícia que apenas visa o share e de manchetes se alimenta, entre os dois extremos do jornalismo policiesco, temos ainda a grande e incontornável pecha de quem vive obcecado com a procura. É que quem procura encontra sempre o que quer encontrar, mesmo que sejam gambozinos ou discos voadores. Não há gambozinos nem discos voadores, mas se os procurarmos encontrá-los-emos. Qualquer crítico das teorias da conspiração sabe disto.
 
 
 
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul      
 

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 23:05

 

Vendas Novas, 12 de Novembro de 2009
      TENDO ainda como referência as espúrias polémicas reactivas à última obra de Saramago, não me parece todavia que exista uma guerra entre ateus e não ateus, por mais que os seguidores de Richard Dawkins aluguem autocarros para garantirem que Deus não existe ou um qualquer aiatola lance uma fatwah contra os incréus. O que há, como é saudável, é discussão entre lídimas filosofias antitéticas.
Bertrand Russel, um dos fundadores da lógica moderna, , no seu livro Porque não Sou Cristão, explicava porque não se afirmava ateu, mas sim agnóstico. Ser ateu é ter uma fé, uma religião que defende o mistério da não existência de Deus.
E curioso. Fé é algo que se tem ou não se tem, não é do domínio do racional, mas a crença, sua irmã menor, é sem dúvida racional (ou racionalizável), mesmo que inviamente, porque crer é dar crédito ao que nos dizem.
Cada crente, atrevo-me a dizer, imagina Deus à imagem e semelhança do pai que lhe faz falta; discutir depois se Deus existe ou não existe, é algo de redondo, gratuito e mesmo inútil, uma ociosidade desvirtuada pelo enorme paradoxo de racionalizar a fé.
Já experimentaram racionalizar o amor?
Quaisquer «provas» que se usem para afirmar a existência de Deus servem igualmente para negar.
Quem assistiu na televisão, faz já muito tempo, às celebradas Conversas Vadias, talvez se recorde desta pergunta de Esteves Cardoso a Agostinho da Silva: «Acredita em Deus?»
Ao que o mestre respondeu: «Se me disser o que é Deus, pode ser que eu acredite, ou que não acredite...»
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 22:55
Vendas Novas, 4 de Novembro de 2009
 
OS AMORES e os desamores que Saramago concita alimentam-se muito mais da sua assumida militância político-partidária do que da sua qualidade indiscutível e originalidade de escrita, sendo que a generalidade das críticas e diatribes que lhe são dirigidas provêm invariavelmente de bocas e penas de quem o não lê ou o faz apenas com ligeireza.
Não posso deixar de recordar aqui que o «originalíssimo ex-ministro Lara lhe censurou o Evangelho Segundo Jesus Cristo, sem o ter lido sequer, e que aquele ilustre desconhecido a quem calhou a sorte de ser deputado europeu, o tal que nega a Saramago a qualidade de português, declarou urbi et orbi que não leu Caim, nem o fará, pela desrazoada razão de ser católico, embora não praticante. Feitios.
Se alguém diz: «sou nadador mas não sei nadar», não será levado a sério, mas português comum adora dizer que é católico sem praticar... e ninguém se ri. Como consegue tal proeza é para mim um enorme mistério.
Bom, indo ao que mais interessa: Saramago, que produz a sua ficção utilizando invariavelmente o método de partir do irreal para o real, do impossível para o lógico realizável, lembrou-se de pegar na Bíblia, catar, no Antigo Testamento, uns episódios dos mais popularizados e submetê-los todos a Caim. Episódios estes tomados completamente à letra, sem direito a qualquer possibilidade metafórica, numa leitura mais restrita que de advogado a decreto-lei, que sempre falará do seu espírito. A partir daí, vá de negar coisas em que ninguém acredita, mas que ele julga que são a essência doutrinal condicionadora das múltiplas crenças que se inspiram na Bíblia. Nada de concessões à lenda, ao mito e ao maravilhoso. Nada de se preocupar com aquilo que podemos chamar de níveis de interpretação de um texto, seja pela perspectiva histórica, seja pela perspectiva filosófica.
Ora, sendo a Bíblia uma obra literária produzida ao longo de milhares de anos pela pena de inúmeros e díspares autores, é evidente que teria de reflectir as suas vivências e entendimentos, naturalmente com os condicionalismos resultantes de cada lugar e momento. Não podemos, ou antes, podemos mas não devíamos, ater-nos à letra que mata, fazer interpretações restringidas ao mais primário literalismo e o pior de tudo: ver o ontem com os olhos de hoje, como faz Saramago, passando à margem de qualquer alegoria, símbolo ou contingência moral segundo o circunstancialismo histórico e geográfico.
Quando se confronta o laureado escritor com estas insuficiências, ele diz que não tem de interpretar, só tem de ler o que lá está em letra de forma. Neste aspecto, não será abusivo dizer-se que, por razões inversas, pede meças aos prosélitos das Testemunhas de Jeová e torna merecedores de crédito os fundamentalistas cristãos, todos tomando a Bíblia como a palavra de Deus, em vez de a ver como a palavra os homens a tentar explicar o que não sabem para dar consistência ao que crêem.
De qualquer forma, lido Caim, não se percebe onde está o escândalo nem o motivo das polémicas desbragadas que por aí se agitam. Digamos que o livro é bastante divertido – mais no sentido sarcástico do que no humorístico –, não distorce o texto bíblico, mas é uma obra menor que fica uns pontos abaixo das tolices do Dan Brown. Tem algumas imprecisões. Os amores de Caim e Lilith não têm suporte bíblico e parecem introduzidos para dar algum sabor erótico à novela. Segundo a tradição judaica, Lilith era um demónio que foi a primeira esposa de Adão, antes que Eva fosse criada.
O capítulo mais interessante do livro – o 13º e último –, parodia o Dilúvio. Por curiosidade se diga que este mito não é original, é uma adaptação de um texto bem mais antigo: A Epopeia de Gilgamesh.
Para terminar, é bom que se diga que todos os remoques que têm sido debitados gratuitamente sobre as tentativas de Saramago provar a inexistência de Deus são completamente descabidos. O homem limita-se, dentro de um direito que ninguém lhe pode negar, a justificar o seu ateísmo e merece que o julguemos suficientemente inteligente. Uma pessoa inteligente não procura provar nem a existência nem a inexistência de Deus. Crenças e descrenças não podem ser levadas à retorta.         
 
ABDUL CADRE
Colaboração Diário do Sul

Por Abdul Cadre | Sábado, 13 Março , 2010, 18:12

 

Não é segredo para ninguém, muito menos para o visado, que as bases do PSD sempre detestaram o Dr. Pacheco Pereira, apenas o suportando em favor da sua penduração mediática. Ontem mais do que hoje, é certo, e amanhã redobradamente, penso eu, como consequência das vicissitudes das suas goradas estratégias de condução dos destinos do seu partido e do país.

Todavia - e ressalve-se que nunca votei PSD - vem de um tempo longo a minha atenção aos escritos de PP, tendo-me habituado a ter apreço pelas suas opiniões, mesmo quando a minha opinião era diametralmente oposta.

Acontece que, paulatinamente, o descambar da prosa pereirista para a mais estrita estratégia partidária, diminuída ainda por cima pelos maiores desconchavos que só o seu ódio de estimação a Sócrates explicam, mas a razão deplora, tornam quanto vem debitando irrelevante e insalubre.

Assim, talvez fosse aconselhável, como mero exercício catártico, o Dr Pacheco imaginar o que diria de Ferreira Leite se ela fosse a líder do PS e o que mais diria estando ela no lugar em que está o Sócrates. Depois deste exercício, poderia reflectir no paradoxo de ter escolhido Rangel para seu pião de revanche, quando os traços comportamentais deste o fazem alma gémea daquele que mais odeia: Sócrates.

A facada de Rangel em Aguiar Branco não será parecida com a de Sócrates em Alegre, nas últimas presidenciais?

Não são Sócrates e Rangel useiros e vezeiros em verdades de geometria variável?

Que pena, perder-se um bom analista e nem sequer se ganhar um sofrível conspirador.

Não há dúvida de que o ódio cega.

ABDUL CADRE

 


Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 22 Junho , 2009, 16:30

REPETIÇÕES DESTE MESMO BLOG

 
 


«TÚ Y YO NON NACIMOS DE UNA FLOR»

Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:52

A EPÍGRAFE encontra-se perdida algures no miolo de uma canção de Patxi Andión e penso que não precisa de tradução. Caiu hoje aqui na escrita como antes me caíra na ideia, quando assistia, na última sexta-feira, a um belíssimo documentário – só podia ser da RTP 2 – transmitido a desoras, para não ter muito público. Bom, se fosse a horas decentes, se calhar o resultado seria o mesmo, por razões que não vale a pena estar agora a dilucidar e os leitores sabem melhor do que eu.

O tema era o terrorismo em geral e o fenómeno dos homens-bombas e do terrorismo dito islâmico em particular, tudo a propósito da triste efeméride dos atentados de Londres, enquadrados no franchising mundial do terror não institucional conhecido por Al-Qaeda, apesar de, neste caso em particular (e na maioria dos outros), nenhuma ligação à empresa mãe se conseguir determinar.

O mais curioso que ali se demonstrava, quer por parte de investigadores ingleses, quer por parte da maior sumidade mundial no estudo dos homens-bombas, um israelita que tem acesso privilegiado a terroristas falhados que se encontram nas prisões de Israel, é não ser possível traçar o perfil psicológico de tais suicidas. O povinho, as mais das vezes induzido por pseudo-opinadores, que primeiro falam e só depois é que pensam, se tiverem tempo –  e nunca têm – resolve o problema duma assentada dizendo que é a religião e o fanatismo, enquanto os especialistas dizem que a não ser a pressão de grupo, não conseguem outro qualquer elo de ligação comum.

Tanto quanto se pôde ler no documentário, o bombista suicida raramente é um religioso tradicional, na maior parte das vezes ou é agnóstico (ou mesmo ateu) ou de conversão recente através de uma catequização superficial. Podem ser pobres ou ricos, sem nenhuma instrução ou universitários. Podem ser operários, engenheiros ou coleccionadores de doutoramentos. Maioritariamente são imigrantes de segunda ou terceira geração e conseguem ser considerados como bons vizinhos nos países onde a família se fixou.

Isto desmistifica a crença popular e a militância ínvia de alguns rapazes dos meios de comunicação social. Mas o mais preocupante que o documentário nos trouxe – e eu já conhecia a experiência por razões profissionais – é que todos nós (praticamente a 100%) podemos ser assassinos com ou sem causa, com ou sem desculpa. A experiência a que me refiro foi feita pela primeira vez por volta dos anos 50 e repetida várias vezes, até datas recentes, sempre com os mesmos resultados: para sermos assassinos basta-nos a necessária circunstância. Dá-se a um patusco o poder de castigar alguém que ele não vê, sempre que não responda correctamente a uma pergunta que ele formula a partir de uma lista com as soluções à vista. Sempre que o perguntado falha, o perguntador carrega num botão de que previamente foi informado que produz uma descarga eléctrica, que permanentemente duplica, face à repetição dos erros, estando também informado que a partir dos 290 voltes o castigado pode morrer. Pois bem, a maioria dos algozes, não só não se impressiona com os gritos de dor (claro que fingidos, mas que ele não sabe que o são), como ultrapasse as cargas mortais sem qualquer hesitação. Os que têm algumas perplexidades, perante o «então, errou, faça a descarga» do dirigente da experiência, logo mandam às malvas os rebates de consciência.

 

 

NÃO NASCEMOS DE UMA FLOR

Por Abdul Cadre | Segunda-feira, 17 Julho , 2006, 17:45


         DIZIA EU, na semana passada, que os opinadores de serviço induzem na acefalia mais comum a ideia de que os homens-bombas e problemas correlativos são coisas de fanáticos religiosos, como se petróleo fosse crença e ocupação da terra alheia simples ritual, e repetem como carrilhões afinadinhos a cartilha que lhes dá jeito. Eles sempre foram assim e não mudam: uns não viram os Gullag, outros não viram o extermínio dos judeus. Neste particular, para aliviarem a má consciência, não vêm agora que os que eram antes exterminados aprenderam mal a lição (ou bem, por outro prisma) e são agora exterminadores. Suas excelências do his master’s voice fingem ignorar algo de muito simples: não há nem nunca houve guerras religiosas, mas que não há nada como invocar Deus para escondermos o rabinho em seta, os corninhos e o cheiro a enxofre. Os homens lutam pela consistência da tripa tal como os cães pela posse do osso. São mais simples os cães, porque não esgrimem desculpas nem exibem álibis; são invariavelmente hipócritas os homens ao arranjarem doutorais explicações para a reivindicação da posse do osso e a condenação do outro. Se o outro não for assim tão diferente quanto se deseje, cobre-se com os defeitos que a retórica sempre arranja.

Estou a escrever na segunda-feira que precede a publicação desta crónica e acabo de ler o repugnante editorial de o PÚBLICO. É inacreditável como se consegue – e não foi o Sr. Durão Barroso que escreveu, embora tenha dito parecido na cimeira dos G8 – chamar ao algoz vítima e à vítima algoz. Israel, para treinar o exército, a aviação e marinha para a guerra que prepara contra o Irão resolve destruir pela segunda vez o Líbano, que não tem forças armadas – apenas soldados sem equipamento – e nem sequer possui baterias antiaéreas. É um treino de tiro ao alvo bastante seguro. Sê-lo-ia totalmente seguro se não existisse o Hezbollah, que não acredito que seja o exército de Deus, como resulta em tradução literal, mas o que sei é que o Tzal, que é em Israel o equivalente da Wehrmacht de Hitler, é o exército do Diabo. Diabo, aqui, é aquilo que não permite ao homem nascer das flores.
Entretanto ficámos a saber como é que o imperador Bush fala com os seus vassalos directos. Não se apercebeu que tinha um microfone aberto e, enquanto dava ordens ao Blair, foi debitando aqueles palavrões que os carroceiros dantes debitavam nos cafés de camareiras.

Assim vai a carroça do mundo e o estrume das alimárias nem sequer se aproveita para adubar os canteiros de flores. Para quê? Ninguém nasce de uma flor.

 

 


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